Nesta altura vivencio dois momentos: uma imensa alegria por assistir à evolução e crescimento de um filho; e uma imensa tristeza por ver a decadência em que o meu pai se encontra devido à evolução da doença de Alzheimer.

Nesta altura vivencio dois momentos: uma imensa alegria por assistir à evolução e crescimento de um filho; e uma imensa tristeza por ver a decadência em que o meu pai se encontra devido à evolução da doença de Alzheimer.

Hoje falei com a Sra do Lar, ela disse-me que ele está mais calmo. O médico alterou um pouco a medicação distribuindo a mesma mais ao longo dia em vez de estar tão centrada à noite. Ele continua é em outra época, fala que pretende casar e coisas do género. Mas o facto de ele estar mais tranquilo também me tranquiliza mais a mim!
Fico muito triste, por saber, que as coisas nunca mais vão voltar a ser como antes! Nunca mais o vou ver a tratar da horta com aquele carinho pela terra e pelas plantas. E a rega? Tantas vezes o encontrei a regar e tantas vezes o ajudava. Andávamos descalços e de enxada na mão. Momentos que já não voltam, pois ele agora passa praticamente todo o dia de cama, mal se consegue mexer e já não reconhece ninguém!
O tempo não volta para atrás e o Alzheimer não tem cura!
É muito triste mesmo, a doença de Alzheimer. Chega a ser revoltante! Durante cerca de 4/5 anos o meu pai estava estável e tinha momentos de lucidez. Conhecia a maior parte das pessoas, mas desde que teve aquela queda e foi para o lar, tudo mudou. Nem a minha mãe ele reconheceu! Nós que achávamos que ele a ela nunca iria esquecer, pois passava o tempo a chamar por ela. Ela está desolada, e agora tem muita pena que ele não possa estar com ela.
Eu só espero que descubram uma maneira de travar esta doença! Esta doença má, que rouba as memórias, a lucidez, a dignidade!
Antes ligava todos os dias para casa dos meus pais e era a minha mãe que me dava notícias, agora continuo a ligar para a minha mãe diariamente, mas também ligo para o lar. A senhora faz-me sempre um resumo de como o meu pai passou o dia.
Ele agora come muito pouco, e está sempre a chamar o nome da minha mãe. Já não sei se é do hábito, ou se sente mesmo a falta e está com saudades!
Não foi fácil dar com o lugar, mas depois de alguns enganos lá conseguimos encontrar o lar de idosos. Um sitio humilde, mas muito acolhedor e limpinho. Gostei imenso da senhora que é a dona e a responsável. Daquelas pessoas que nos enchem logo o coração de bondade e de tranquilidade. Chegamos na hora que ele estava a fazer uma sesta. Ele tem um quartinho só para ele, o quarto é pequeno mas tem o essencial. Tem uma cama toda articulada, além de ter grades.
Ele foi forçado a acordar e quando acordou parecia nem saber onde estava. Não me reconheceu. Quando eu lhe disse o meu nome, apenas disse que tinha uma filha com esse nome, mas que não era eu. Ainda insisti com ele que era mesmo eu, mas ele não aceitou, tratou-me o tempo todo por "você" e como se eu fosse uma estranha que ali estava. Apontou para o meu marido e perguntou quem era. Eu disse-lhe o nome, e ele disse: " olha é o mesmo nome do marido da minha filha, duas pessoas com o mesmo nome! Está mal!" Depois só falava de casamentos e de bailes. Dizia que tinha 31 anos, depois dizia que tinha 29. Ultimamente até mesmo ao médico e às pessoas diz muitas vezes que tem 29 anos, não sei porquê! Nós estavamos lá no quarto dele com a Sra. que é dona mas também é quem cuida e outra funcionária, e ele repetiu várias vezes a frase: "isto é tudo boa gente, do melhor que há"!
Fiquei tranquila, sei que está a ser bem tratado. Tenho esperança que ele me volte a reconhecer. Se ele não sabe que eu lá estive, deve de pensar que não o vou ver, que não me importo com ele. Eu segurava na mão dele e ele olhava muito para mim...mas não aceitava que era eu lá estava!
Agora a minha mãe também está mais desafogada, embora sinta saudades dele...
Eu cheguei a estranhar o grande apetite do meu pai, pois ele estava sempre a comer e a pedir mais. Mas agora que ele não tem comido nada de jeito, a preocupação é bem maior. A minha mãe diz que ele está muito em baixo e está triste, e diz que morre! Eu não queria que ele morresse nem que ele sofresse! Queria que ele recuperasse, pelo menos até à fase antes da queda. E gostava de estar mais perto e de o ver mais vezes!´
A ida dele para o lar já está confirmada, era necessário, mas custa-me muito!
É tudo por aqui! The End